Barrichello: Avisei que minha carreira não havia acabado

Em entrevista ao Estado, brasileiro diz estar com ânimo renovado e pronto para correr no Brawn GP.

Barrichello: Avisei que minha carreira não havia acabado

Não há na história do automobilismo brasileiro um piloto capaz de provocar tanta controvérsia quanto Rubens Barrichello. Agora, por exemplo, depois de ser confirmado pela Brawn GP, quinta-feira, como companheiro de Jenson Button, não existe roda de discussão sobre Fórmula 1 que não fale dele. As opiniões vão da admiração a sua técnica, velocidade, constância e longevidade a duras críticas, em que sobressaem ideias como profissional perdedor e mercenário.

O fato é que aos 36 anos e nada menos de 268 GPs nas costas, recordista da competição, Rubinho continua na Fórmula 1, contra a maioria das previsões. Quando se pensava que a corrida de Interlagos, no ano passado, fosse a sua última no Mundial, eis que, de novo, o piloto ganhou sobrevida na Fórmula 1. “Nesses quatro meses afirmei, várias vezes, que a minha carreira não havia terminado. Poucos acreditaram. A resposta está aí”, afirmou nesta entrevista exclusiva ao Estado, concedida depois de acompanhar sexta-feira o primeiro teste do carro de sua equipe, em Silverstone, na Inglaterra.

Quando você efetivamente soube que seria atendido nessa sua vontade quase incontrolável de permanecer na Fórmula 1?

Apenas quinta-feira da semana passada (dia 26). O Ross Brawn (proprietário da equipe) me telefonou e há um tempinho não falávamos sobre como estava o projeto de seguir com o time da Honda, porque não havia novidade. Umas três ou quatro vezes ele achou que o negócio ia rolar e acabou dando para trás. De repente, ele me perguntou: ‘Quando você pode vir fazer o banco?’ Eu, opa, respondi que só não ia naquele instante em razão de não dar para pegar o avião. Foi nesse instante que vi, de verdade, que a chance que eu aguardava havia finalmente surgido. Desliguei e abracei a Silvana (sua mulher), que acompanhou de perto a minha apreensão nestes quatro meses, quanto me preparei fisicamente.

Você já viajou sabendo que seria o escolhido na disputa com Bruno Senna?

O Ross Brawn sempre me garantiu que eu estava no páreo e, se dependesse apenas dele, ficaria comigo por causa de conhecer o que posso fazer. Liguei para o pessoal que cuida do meu motorhome, na Inglaterra, eles aprontaram tudo e acampei dentro da equipe (na cidade de Brackley). Fiquei morando lá quatro dias, como um cigano, entre os caminhões do time. Acordava, atravessava a área onde montavam o carro, fazia ginástica na academia e dizia que só sairia de lá depois de assinar o contrato. O pessoal ria. Nesses dias, também, trabalhei nos simuladores horas seguidas. Temos dois deles, sensacionais, com várias possibilidades de ajuste. Passei tantas horas lá dentro que dava até dor de cabeça.

E quando assinou o contrato que tanto desejava?

Apenas depois de oficialmente o Ross Brawn se tornar proprietário da equipe, à meia-noite de quinta-feira na Inglaterra. Logo em seguida eu e o Button assinamos. E já pela manhã vocês foram ao autódromo de Silverstone realizar o primeiro teste do carro.

O carro chegou às 10h30 e desde as 8 horas eu estava lá. O Ross Brawn veio até mim e disse que era a primeira vez que eu havia chegado no circuito antes dele. Na realidade eu parecia uma criança de 15 anos com a filmadora na mão, registrando o carro sair dos boxes, via tudo aquilo como uma conquista. Depois do teste, viajei da Inglaterra para Portugal e durante o voo escrevi o tempo todo. Vivi as melhores férias de minha vida, foram quatro meses com a família. Desde meus 16 anos eu não tinha férias de verdade. Mas compreendi depois de um tempo, não mais de 15 dias, que aquilo não é o que quero para minha vida, sou muito jovem, me sinto com 18 anos, tenho a velocidade na palma da mão.

Está ansioso para guiar o carro projetado pelo grupo de técnicos do Ross Brawn?

Nós vamos treinar de segunda a quinta-feira em Barcelona. Meu primeiro dia será terça-feira, mas já domingo à noite vou estar lá. Estou me sentindo livre, sou grato à vida, a Deus, que me deu essa nova oportunidade e não pretendo passar em vão. Não sei qual será o resultado, mas darei tudo de mim, atravesso o melhor momento de minha vida.

Para finalizar, o que você pensa do Bruno Senna?

Se tivermos em mente que ele tem quatro anos de automobilismo e é capaz de fazer o que faz é porque no mínimo tem muito talento. Se ele ganhar alguma experiência, testar, conhecer melhor a Fórmula 1 antes de estrear, como penso que irá lhe acontecer em breve, apostaria que o Bruno vai crescer bastante.

Estadão
www.estadao.com.br

Publicado Domingo, 8 Março 2009. Acompanhe os comentários através do RSS 2.0 feed.

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