Devoção à HQ faz de Zack Snyder o herói e o vilão do filme ‘Watchmen’
Diretor de ‘300′ optou por fidelidade máxima à obra de Alan Moore.
Para os não-iniciados no mundo dos gibis, aposta pode fracassar
As mais de duas décadas que separam o lançamento de “Watchmen” da chegada de sua adaptação aos cinemas dariam por si só uma graphic novel.
Publicada pela primeira vez entre 1986 e 1987 como uma série de 12 capítulos mais tarde reunida em um só volume, a HQ de Alan Moore e Dave Gibbons foi imediatamente alçada à condição de obra-prima dos quadrinhos de super-heróis, mas não só: venceu o prêmio literário Hugo de ficção-científica e foi eleita pela revista “Time” um dos 100 romances mais importantes do século.
Os direitos para levar a história ao cinema foram comprados ainda no final dos anos 1980, mas de lá para cá “Watchmen” foi considerada “infilmável” por executivos de Hollywood e enfrentou uma busca por diretores que parecia não ter fim - Terry Gilliam, Darren Aronofsky e Paul Greengrass foram alguns dos nomes ligados ao projeto até que a Warner Bros. fechasse com o novato Zack Snyder.
Moore não concordava com a adaptação, e muitos fãs temiam pelo pior. Ainda assim, “Watchmen - O Filme” foi feito e, depois de quase ser embargado numa disputa judicial entre a Fox e a Warner, estreia finalmente nos cinemas de todo o mundo nesta sexta-feira (6).
Quem vigia o diretor?
Apresentando-se ele próprio como um grande fã dos quadrinhos de Moore e Gibbons, o diretor de “Madrugada dos mortos” e “300″ - outra adaptação de HQ - talvez seja o principal herói dessa novela da vida real.
Suportando a vigilância impiedosa dos aficcionados por “Watchmen” e tendo de lidar com as pressões naturalmente envolvidas em um projeto de US$ 160 milhões, Snyder optou por fazer de seu filme o mais fiel possível à história original. Não trocou, por exemplo, o pano de fundo oitentista de Guerra Fria pela mais atual Guerra ao Terror, não economizou nas cenas de violência física que são fartas na HQ, não botou um tapa-sexo no membro azul do Dr. Manhattan nem alterou seriamente o final da história, como a boataria na internet dava a entender meses antes do lançamento.
Para o bem e para o mal, Snyder e toda a equipe envolvida no filme sabiam que a matéria-prima sobre a qual estavam trabalhando era “intocável”, e quaisquer mudanças radicais que fizessem seriam tiros nos próprios pés.
Quem já leu “Watchmen” - a HQ foi lançada no Brasil ainda em 1988 e desde então ganhou diversas reedições - certamente reconhecerá no filme diálogos e sequências traduzidas inteira e literalmente do original. Os enquadramentos, a paleta de cores secundárias (tons de rosa, laranja, marrom…), as manchetes de jornal e as pichações espalhadas pelas ruas de Nova York estão também todos lá, no longa de Snyder.
Ainda que trabalhando com um roteiro adaptado por David Hayter (”X-Men”) e com um story-board próprio, não é difícil perceber que a principal guia para o diretor tenha sido a própria graphic novel de Moore e Gibbons, não por acaso apelidada no set de “Bíblia” pelo elenco.
Suportando a vigilância impiedosa dos aficcionados por “Watchmen” e tendo de lidar com as pressões naturalmente envolvidas em um projeto de US$ 160 milhões, Snyder optou por fazer de seu filme o mais fiel possível à história original. Não trocou, por exemplo, o pano de fundo oitentista de Guerra Fria pela mais atual Guerra ao Terror, não economizou nas cenas de violência física que são fartas na HQ, não botou um tapa-sexo no membro azul do Dr. Manhattan nem alterou seriamente o final da história, como a boataria na internet dava a entender meses antes do lançamento.
Para o bem e para o mal, Snyder e toda a equipe envolvida no filme sabiam que a matéria-prima sobre a qual estavam trabalhando era “intocável”, e quaisquer mudanças radicais que fizessem seriam tiros nos próprios pés.
Quem já leu “Watchmen” - a HQ foi lançada no Brasil ainda em 1988 e desde então ganhou diversas reedições - certamente reconhecerá no filme diálogos e sequências traduzidas inteira e literalmente do original. Os enquadramentos, a paleta de cores secundárias (tons de rosa, laranja, marrom…), as manchetes de jornal e as pichações espalhadas pelas ruas de Nova York estão também todos lá, no longa de Snyder.
Ainda que trabalhando com um roteiro adaptado por David Hayter (”X-Men”) e com um story-board próprio, não é difícil perceber que a principal guia para o diretor tenha sido a própria graphic novel de Moore e Gibbons, não por acaso apelidada no set de “Bíblia” pelo elenco.
Mais importante que tudo isso, no entanto, é a preocupação de Snyder em trazer o pano de fundo político da história para o primeiro plano. Ainda que fundamentais para o clima de histeria nuclear da trama, as maquinações políticas dos governos dos EUA e da União Soviética às vésperas de uma suposta Terceira Guerra Mundial são mostradas de modo mais sutil e diluído na HQ - os acontecimentos são narrados por meio de páginas de jornais, programas de TV e uma ou outra aparição do presidente Richard Nixon e seus assessores, em sua maioria, intercaladas aos dramas cotidianos dos personagens.
Provavelmente pela distância histórica que já separa o espectador de hoje da Guerra Fria, o filme apresenta essa mesma discussão política de forma mais explícita e didática, com um tempo maior gasto nas sequências ambientadas em um bunker dos EUA, onde Nixon e cia. discutem o futuro da humanidade aos “cinco minutos para a meia-noite” (expressão usada para se referir à proximidade da hecatombe atômica).
Mas o maior trunfo do filme, isto é, sua devoção quase obsessiva pela HQ original, é provavelmente a maior armadilha de “Watchmen”. Para quem nunca leu a obra de Moore e nem pretende fazê-lo, o longa pode parecer só um emaranhado de histórias confusas protagonizadas por um bando de personagens esquisitos com suas máscaras e fantasias patéticas.
“Watchmen” já foi descrito como uma desconstrução dos arquétipos dos super-heróis dos gibis, mas de que adianta descontruí-los se parte do seu público - o de não-leitores de quadrinhos - sequer sabe quais são esses tais arquétipos?
Diferentemente das adaptações mais recentes de quadrinhos para o cinema, “Watchmen” não consegue (nem pretende) definir quais são os heróis ou os verdadeiros vilões de sua história. E se o mesmo acontecer com Snyder, ele corre o risco de virar herói para uns - os fãs da HQ - ou um tremendo picareta para outros - os frequentadores de cinema em geral.
Globo
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