Clint Eastwood mostra declínio americano em ‘Gran Torino’

Cineasta volta a atuar depois de anos e assina produção da história que mostra veterano de guerra

Clint Eastwood mostra declínio americano em ‘Gran Torino’

Um carro de 1972 cuidadosamente parado na garagem. Sempre limpo, bem lustrado, mecânica perfeita. O Ford Gran Torino de Walt Kowalski (Clint Eastwood) é o último resquício de uma época que não existe mais, em que os Estados Unidos eram um país próspero, com uma forte indústria automobilística e sem imigrantes espalhados por todos os cantos. Um tempo de que Walt Kowalski sente saudades.

Em “Gran Torino”, que estreia nesta sexta-feira (20) nos cinemas, é justamente isso que Clint Eastwood –diretor, além de protagonista– quer mostrar: como os Estados Unidos mudaram desde os anos 70 e, principalmente, como para alguns americanos essas transformações são sinônimo de decadência.

Veterano de guerra, Walt acabou de perder a mulher e vive sozinho em um bairro que foi dominado por imigrantes e gangues. Passa seus dias fazendo pequenos consertos na casa, cuidando do jardim, lustrando seu Gran Torino. E uma vez por mês vai ao barbeiro cortar o cabelo. Diariamente bebe sua cerveja enquanto troca algumas palavras com a fiel cadela Daisy e, de sua varanda, lamenta a mudança de cenário no entorno de sua casa. Walt segue uma disciplina militar, e para ele soa como desrespeito o desleixo dos vizinhos, imigrantes Hmong (originais do sudeste asiático), que, ao contrário, não se importam com nada disso.

Quando o tímido e calado Thao (Bee Vang) é obrigado pelo delinquente primo mais velho a roubar o Gran Torino de Walt, o roteiro do estreante Nick Schenk sofre uma reviravolta. Ao evitar que o carro fosse levado e enfrentar sozinho a gangue que aterroriza o bairro, o ranzinza americano passa a ser visto pela vizinhança como herói.

Famílias Hmong vêm de todos os cantos para agredecê-lo não apenas por ter salvo o menino da influência dos bandidos, mas para homenageá-lo. E é assim que Walt baixa a guarda, supera a própria resistência e o preconceito, e se aproxima dos vizinhos, criando laços de amizade e percebendo que tem com eles mais identificações do que com os próprios filhos.

A predileção de Eastwood por grandes dramas se repete aqui em “Gran Torino”, assim como sua visão sempre genial do cinema, lançando filmes que podem agradar ao grande público e ainda assim ir além, com mensagens inteligentes, críticas e pontos de vista que estão muito longe do simplismo frequentemente mostrado em produções de Hollywood.

Mas o cineasta aposta também no poder de comover, de manipular o espectador e faze-lo necessariamente não sair da sala de cinema sem derrubar pelo menos algumas lágrimas. E é aí que ele saca sua dose discreta de sensacionalismo barato –já experimentado e bem-sucedido em “Menina de Ouro” (2004) –, investindo em desfechos exagerados e que beiram o incrível, no mau sentido.

Em frente às câmeras

“Gran Torino” marca o retorno de Eastwood, que completa em maio 79 anos, em frente às câmeras. Ele não atuava em um longa-metragem desde “Menina de Ouro”, e já havia confessado que talvez não retomasse o ofício de ator.

“Não tinha planejado atuar muito mais, na verdade. Mas esse filme tinha um papel para a minha idade, e o personagem parecia que havia sido feito para mim, embora não tenha sido. Gostei do roteiro, ele tem reviravoltas e algumas cenas bem engraçadas”, comentou o cineasta.

Eastwood repete em “Gran Torino” o que já vinha praticando em seus últimos longas: envolvimento total em todas as etapas da produção. Além de dirigir e protagonizar o filme, ele assina a produção e a trilha sonora, soltando a voz inclusive em bela parceria com Jamie Cullum, na canção que encerra o longa.

“Gran Torino” foi muito bem nas bilheterias americanas. Estreou no início de janeiro e representou a melhor abertura de um filme de Eastwood, faturando US$ 29 milhões e superando os US$ 18 milhões de “Cowboys do espaço” (2000). O orçamento estimado do filme foi US$ 35 milhões e calcula-se que já tenha faturado até agora mais de US$ 140 milhões só nos Estados Unidos.

Globo
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Publicado Domingo, 22 Março 2009. Acompanhe os comentários através do RSS 2.0 feed.

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