Festival consagra Radiohead em SP
Just a Fest ainda teve Kraftwerk e Los Hermanos entre atrações
Com os trinta mil ingressos postos à venda esgotados um dia antes do evento (pela metade do show do Radiohead nem os cambistas tinham entradas), o Just a Fest é forte candidato a melhor festival do ano em São Paulo – mesmo que ainda seja muito cedo para esse tipo de previsão.
A atração principal da noite foi o Radiohead: foi a primeira vez que o quinteto inglês, uma das mais importantes bandas de rock do mundo, se apresentou no Brasil. Desde o sucesso internacional de “Ok computer”, álbum de 1997, que a banda é esperada pelo seu fiel grupo de fãs brasileiros. Com um show perfeito – reverente sem ser saudosista, contemporâneo sem ser afetado – a banda mostrou por que continua tão influente ao longo de quase duas décadas de carreira.
Foi uma apresentação para fãs fiéis, daqueles que conhecem todas as músicas de “In rainbows” (o álbum de 2007 foi tocado na íntegra) ou a letra do lado b “Talk show host”, da trilha sonora do filme “Romeo + Juliet”. Em retorno, a banda sorria, pulava, dançava, olhava feliz e perplexa (como deve fazer noite após noite) para a plateia.
Arriscando uns “obrigado” e “boa noitchi”, o vocalista Thom Yorke foi o mestre de cerimônias tímido que o som do Radiohead promete e precisa. Sorri, canta de olhos fechados, faz gestos para o público, dança desajeitadamente, fala pouco. Mas o principal personagem do show foi o próprio público, reagindo entusiasmado o tempo todo a um som nem sempre convidativo ou “fácil”.
Antes disso, o Kraftwerk reescreveu a história moderna da música pop ao seu bel-prazer, num show feito a quatro laptops. Se a apresentação é parada, faz parte do próprio conceito da banda, onde homem e máquina se fundem irremediavelmente.
Responsáveis diretos por boa parte do que se entende hoje por “música eletrônica”, o Kraftwerk não quis criar nenhuma ilusão de sua modernidade: músicas mais antigas mantinham os mesmos timbres da época em que foram criadas, e os vídeos colaboravam mais ainda para cristalizar a imagem tecno-futurista do grupo.
O repertório foi impecável, com clássicos como “Trans-Europe Express” e “The model” (ressampleados por inúmeros artistas de eletrônica ao longo das décadas) mostrando a origem do tecno, da house, do electro e até do funk carioca. Enquanto isso, no telão, imagens diversas recontavam e davam contexto às músicas – ora um desfile de modelos, ora protestos contra os perigos da energia nuclear. Em “The robots”, o sonho cibernético se consuma, e os músicos são substituídos por robôs de verdade – os verdadeiros fantasmas da máquina.
Abrindo a noite, os cariocas do Los Hermanos voltavam à São Paulo depois de um hiato de quase dois anos. Felizes e emocionados, fizeram um show solto (às vezes solto demais, com direito a erros) e não tocaram o hit “Anna Júlia”, mas compensaram qualquer problema com empolgação genuína.
Os fãs da banda estavam lá para ajudar, cantando todas as músicas de cor e participando o tempo todo: a abertura, com “Todo Carnaval tem seu fim” teve direito a chuva de confetes e serpentinas. Se os relatos do show no Rio mostravam o grupo tenso, quase burogrático, em São Paulo eles não hesitaram em nenhum momento em deixar as preocupações de lado. E dá-lhe dancinhas ébrias, “vocês estão muito lindos” e nenhuma declaração sobre uma possível volta em definitivo. Mas também, não era de se preocupar – foi só um show, e foi apenas um (belo) festival, literalmente.
Globo
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